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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Neolacerdeismo e economia

(Ilustração capa: Cézanne)
Do Cafezinho - 06/07/2012
Miguel do RosárioTemos dois artigos hoje no jornal escritos sob o mesmo espírito. Ziquinha e seu Oscar, de Chico Alencar, e Fantasmas no Caminho, de Fernando Gabeira encaixam-se melodiosamente na estratégia da mídia de criminalizar e denegrir a política. Neste sentido, são petardos conservadores. Ambas são levianos. Abordam temas profundos sem apresentar dados ou argumentos consistentes.
Gabeira inicia o seu texto com fundo musical de filme de terror. O cara realmente entrou pro lado mal da força. Fala que esteve em São Paulo, numa determinada loja, às 14 horas, e ela estava vazia. Daí, numa pirueta mortal, ele faz a ilação descarada de que vivemos uma crise anunciada, uma bolha de crédito que vai explodir a qualquer momento.
Um autêntico urubu.
Tenho pensado muito sobre isso. Uma vez, no Óleo do Diabo, recortei um trecho de Keynes, que adverte precisamente sobre o risco econômico de uma mídia empenhada em combater um governo progressista. Para isso, não hesitará em influenciar negativamente a tomada de decisões da classe empresarial no país, com vistas a produzir um ambiente de mal estar e crise.
Ora, acontece que o desenvolvimento industrial atualmente é uma questão sobretudo de atitude. Se todo mundo ficar se lamuriando, reclamando dos impostos, da infra-estrutura, então não sairemos nunca do subdesenvolvimento. O industrial brasileiro não pode esperar o governo resolver todas a confusões tributárias pra começar a trabalhar. Tem que botar a mão na massa agora. Burocracia é complicada no mundo inteiro.
A mídia comece a ser bem sucedida em sua estratégia de fazer profecias autorrealizáveis. É uma torcida tão engajada por números negativos na economia, que os empresários se retraem, atemorizados, e aí os números efetivamente se tornam negativos.
O pessimismo em relação à economia brasileira pode ser uma opção estética ou ideológica respeitável, mas considerado friamente é uma estupidez. O Brasil tem uma população enorme, dentro da melhor faixa etária possível, recursos naturais abundantes, crédito lá fora, democracia funcionando direitinho; os dados macro-econômicos são pujantes e tem melhorado ano a ano. Um amigo que trabalha na prefeitura do Rio me lembrou outro dia que o orçamento municipal cresceu nos últimos anos de uns 6 a 8 bilhões para 24 bilhões de reais em 2012.
Sobre a indústria, temos que pensar o seguinte: ainda que haja quedas pontuais em alguns setores, o Brasil está assegurando a infra-estrutura básica: na energia, na siderurgia, na construção-civil, na produção de carros, motos e tratores. Falta agora estabelecer uma indústria ferroviária, o que será uma consequência a médio-longo prazo da construção do trem bala – que os mesmos urubus não querem fazer.
Temos água potável, petróleo, terras, minérios, além de siderurgias, refinarias e fábricas de autopeças. Que país, além dos EUA, possui potencial tão espetacular, sendo que os EUA vivem o final de um impressionante ciclo de crescimento?
As análises econômicas não podem se amarrar a formas de pensar binárias, simplistas, que enxergam apenas um dado (o PIB, por exemplo) e não o conjunto da economia brasileira.
Por isso eu acho a choradeira política de Gabeira e Alencar uma reação infantil. Seus argumentos não se firmam em bases consistentes. Um deles encontra uma loja vazia em São Paulo, às 14 horas, e usa o fato como base para vaticinar desgraças. O outro inventa um personagem fictício para falar mal da política brasileira.
Ora, não é preciso inventar um “ziquinha” para falar mal da política. Mas critique de frente, com a própria boca, e não pela boca de um boneco inventado. Agora só falta a essa. O político não tem voto, não tem apoio de outros partidos, nem de movimento social, nem de sindicato, ou seja, não tem apoio de ninguém, então inventa um “ziquinha”, um homem “bem popular” na cidade, para corroborar suas ideias…
Chico Alencar comete um erro crasso, muito comum entre esquerdistas de botique: subestimar a inteligência do povo. Na verdade, é pior do que subestimar, parece que eles querem manter o povo na ingenuidade, e assim posarem de esquerdistas puros, eleitos com o voto da classe média mediatizada. O preço é ficar bem na Globo!
E assim o sujeito diz que “frequenta o movimento popular” e afirma que eles (o movimento popular) não entendem, por exemplo, o pragmatismo na política.
Eu não acredito na ingenuidade do povo. E se o “movimento popular” apresenta uma visão idealista ou ingênua de mundo, deve-se procurar esclarecê-lo acerca das estratégias. O movimento social brasileiro tem que ficar mais inteligente, astuto, vivo e determinado, ao invés de se tornar mais ingênuo, idealista e burro.
E a esquerda nunca pode esquecer a dimensão da urgência, que também requer flexibilidade política e disposição aliancista.
A urgência do povo, que ainda agoniza em hospitais lotados e infectos, e cujos filhos estudam em escolas de má qualidade, é absoluta: quer promover já mudanças efetivas, e se consolidem no longo prazo, que não seja apenas um “vôo de galinha”.
A democracia brasileira está viva. É capitalista, sim, envolve campanhas milionárias onde os interesses econômicos se conflitam, mas oferece também abundante recurso público e gratuito (via horário eleitoral e fundos partidários) para se fazer a luta política, o que é um aspecto socialista.
Segundo Robert Alan Dahl, um dos mais importantes cientistas políticos contemporâneos, as democracias modernas são uma mescla de capitalismo e socialismo.
Em todos esses países, há representantes e correntes de opinião divergentes entre os dois eixos básicos da política humana, ainda identificados como esquerda e direita: um mais voltado à promoção da igualdade e justiça social; outro voltado à valorização da criatividade e do empreendedorismo individuais; isso pra só falar dos aspectos positivos, claro. O progressismo democrático resulta de uma combinação equilibrada desses dois espíritos.
Os faniquitos de Chico Alencar e Gabeira não contribuem em nada para a valorização da política, não por causa do seu pessimismo, mas por sua inconsistência. Já que eles gostam tanto de falar em ética, digamos que o pessimismo de Gabeira e Chico não é ético. Não é um pessimismo viril e autêntico de um filósofo, ou de um cidadão qualquer que tenha uma visão de mundo inteligente e sombria. O pessimismo deles é superficial, partidário, adocicado, medroso. Tratam sua própria falta de perspectivas como se fosse um problema nacional.
Os estudos mais embasados da realidade política brasileira não mostram nenhuma “decadência” moral, ideológica ou política. Os partidos fazem alianças sim, mas se considerarmos o país como um todo, a maioria delas são alianças consistentes com os projetos nacionais. PSDB, DEM e PPS estão juntinhos no país inteiro. PT, PCdoB, PSB, estão mais unidos agora do em qualquer outro momento, apesar do estardalhaço com que a mídia trata problemas ocorridos em 2 ou 3 cidades. Sendo que em Recife, o PSB não tem culpa de absolutamente nada. O PT implodiu sozinho. A venda de tempo de tv feita por alguns partidos nanicos são fenômenos marginais; mas a negociação política em torno do tempo de tv dos partidos se dá em torno de interesses políticos e partidários que, mal ou bem, refletem anseios sociais e econômicos concretos.
Analisando o histórico das alianças dos últimos anos e a evolução dos representantes políticos, não há base para falar em decadência. Além do mais, o percentual de votantes no total da sociedade atingiu a plenitude somente nos últimos 10 anos, de maneira que só agora temos um parlamento realmente representativo do povo brasileiro. Um parlamento cheio de vícios, assim como o povo, mas não é científico dizer que é pior que os anteriores.
A tecnologia e a vontade popular tem tornado o ambiente político, institucional e partidário brasileiro mais transparentes. Há muito vício e corrupção, mas nunca tivemos tantas ferramentas para combatê-los como agora, em que todas as despesas, convênios e contratos terão que ser publicados na internet.
A verdade é que raramente os intelectuais, midiáticos ou não, entendem a política. Para eles, os políticos serão sempre seres impuros. Os intelectuais, ensina Espinoza, têm invariavelmente um visão irreal da política.
Em relação às alianças, temos o mesmo problema. Há um viés antidemocrático e reacionário no purismo. O que enriquece a democracia não é justamente a gama enorme de cores que ela oferece? Os políticos representam interesses econômicos. Um político que só represente a si mesmo não tem mais futuro no país. E se ele representa um setor econômico, então a sua aliança, à esquerda e à direita, é um fenômeno democrático; não necessariamente positivo, mas ainda sim democrático.
Quanto à ideologia propriamente dita, os partidos, os políticos e os povos, ou seja, a vida real é muito mais complexa, rica e interessante do que o mundinho das teorias. Tudo bem aceitar que existe diferença entre esquerda e direita, mas pretender que essas definições sejam uma questão fechada, ou pior, arrogar-se como único ou verdadeiro representante de uma ideologia ou de uma classe, não me parece sensato.
Por isso dou razão ao Congresso em ter derrubado a regra autoritária do STE de verticalizar a política de alianças, proibindo que partidos divergentes a nível nacional se aliassem a nível local. Seria uma violência à liberdade partidária e à democracia. Se um partido quer se desprender de outro, é ótimo que possa fazê-lo de maneira menos traumática, reduzindo o número se alianças locais. Da mesma forma, se um partido quer se aproximar de um antigo adversário, pode começar fazendo alianças locais. Cria-se um ambiente de liberdade que azeita as engrenagens ideológicas que criam e quebram alianças.
Quanto ao estado de espírito que eu mencionava no início do post, penso o seguinte: para desenvolver nossa democracia, assim como nossa indústria, temos que ser otimistas, empreendedores e criativos, o que implica em fechar o ouvido à mediocridade midiática e investir no futuro. Quem viver, verá.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Ascensão social: Nunca antes na historia deste País...

Microcrédito 

Talvez um dos fatos importantes a respeito da sociedade brasileira seja a afirmação de "identidade" de um enorme contingente populacional que gosta de imaginar-se como "classe média".

Isso, obviamente, não é acidente nem produto espontâneo. É consequência de um processo civilizatório recente em que as políticas sociais sujeitas a algumas condicionalidades foram mais bem focadas.

Paralelamente, houve uma "inclusão" desses cidadãos na economia de "mercado" devido ao forte aumento das oportunidades de emprego e ao acesso ao crédito.

Uma das características mais marcantes desses novos cidadãos é a "internalização" de que o fator mais importante para "subir na vida" é a conquista da educação para si e para seus filhos, ainda que lhes custe enormes sacrifícios.

Só não percebe essa ascensão social quem sofre de miopia. É tal ascensão que vai continuar a permitir a construção de um mercado interno capaz de garantir o mínimo de economicidade e "incluir" o Brasil, de forma adequada e relativamente segura, na globalização avassaladora que fragmentou o processo produtivo.

Esses fatos são visíveis na recente pesquisa feita pela Fondapol (Fondation pour l'Innovation Politique), em meados de 2011, com jovens de 25 países, em que se perguntou: 1º) Você acha seu futuro promissor ("prometteur")?; 2º) Você acha o futuro do seu país promissor?

À primeira pergunta 87% dos jovens brasileiros responderam afirmativamente, e à segunda, 72%. Isso contrasta com os EUA, onde à primeira pergunta 81% responderam afirmativamente, mas à segunda, apenas 37%. O curioso é que na China a coisa se inverte: 73% creem que têm futuro promissor, mas 82% creem no futuro promissor do seu país.

O governo decidiu estimular o Banco do Brasil -agora proprietário do Banco Postal- e a Caixa Econômica Federal -que controla as "lotéricas"- a expandirem cuidadosa e seguramente o microcrédito, com taxas de juros mais acessíveis e menor burocracia, o que deve aumentar a "inclusão" social.

É importante dizer que, para fazê-lo, não se cogita subsídio do Tesouro ou violação das garantias exigidas pelo Banco Central, mas, sim, redução da distância entre os bancos e o tomador de crédito, diminuindo o evidente constrangimento dos mais pobres de acessarem os bancos.

Isso vai ser feito aproveitando a "imagem" e a reputação secular do BB e da CEF -que, para os mais simples, significam segurança absoluta. A economia de escala deve tornar os seus "spreads" mais atrativos do que os dos bancos privados que só agora começam a "descobrir" os potenciais novos clientes e vão ter que disputá-los.

A direita não presta


Não é de hoje que a direita não gosta de presidente que governe beneficiando os pobres, de presidente comprometido com inclusão social.Sempre foi  e sempre assim será.



No livro João Goulart, Uma Biografia, tão bem comentado pelo deputado Emiliano José (PT-BA) na postagem anterior, o autor, logo na apresentação do livro, diz:A biografia de João Goulart permite ao historiador encontrar meios para compreender aspectos importantes da história contemporânea do país, tornando-se uma “janela” para visualizar o passado. Muitos dos problemas econômicos, políticos, sociais e culturais da atualidade, bem como os dilemas, as contradições, as práticas e as tradições de esquerdas no presente, podem ser compreendidos por esse passado político. Muitas respostas aos problemas atuais vividos pela sociedade brasileira, não tenho dúvida, podem ser encontradas na época de João Goulart”.

Pois é, todos os tipos de qualificações, de acusações, de mentiras, de organizações golpistas que houve na época de João Goulart, repetiu-se com a ascensão do PT, o maior partido de esquerda na América Latina, ao Poder. Só mudaram os personagens da história.
Vejamos:
Saiu Carlos Lacerda e entrou José Serra.
Saiu a UDN,  o PSDB e o DEM ficaram em seu lugar.
Hoje, para a felicidade da sociedade não idiotizada, não há mais o Correio da Manhã, a Tribuna da Imprensa, o jornal Diário de Notícias, mas, em compensação, há  Veja, IstoÉ, Época.
Saiu o Globo do velho Roberto Marinho e entrou O Globo dos filhos de Marinho.
Saiu O Estado de São Paulo, de Júlio Mesquita, um dos líderes do golpe de 1964 e entrou os filhos de Júlio Mesquita.
Saiu a Folha de S Paulo de Octávio Frias Filho e entrou a Folha de Otavinho.
Hoje não há mais o IBAD, o IPES, mas, infelizmente, existe, o Instituto Millenium, a CNBB, a UDR, a FIESP, Os Cansados.
Ontem, os golpistas acusavam João Goulart de ser aliado da URSS, de Cuba. Hoje, mais precisamente no governo Lula, os golpistas acusaram Lula de ser aliado da Venezuela, da Bolívia, das Farcs, de Kadaffi, de Mahmoud Ahmadinejad. Assim como acusam, atualmente, o governo de Dilma Rousseff.
Expressões como pelego, aparelhamento do Estado, política de conciliação, República Sindicalista, terroristas de esquerdas, populismo, apadrinhamento político, fisiologismo são as mesmas usadas atualmente. Assim como Goulart foi acusado disso tudo, Lula também foi e Dilma continua sendo.
Goulart foi acusado de ser o presidente mais corrupto da história do Brasil, Lula também foi. E a bem da verdade, nem um nem outro foi corrupto, corrupto de verdade foi o governo FHC.
Portanto, a direita mesquinha, corrupta, bandida, burguesa, golpista sempre vai agir assim.É  só um presidente de esquerda trabalhar em favor dos despossuídos, como dizia João Goulart, que a direita vai fazer de tudo para derrubá-lo.
Leia mais em: O Esquerdopata e no Terror do Nordeste
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