O abismo de Aécio
(04/02/2013)
do Minas Sem Censura
Nosso “aparte” semanal ao senador Neves incide sobre sua pregação
quase religiosa do fracasso do Brasil sob a presidência de Lula e Dilma.
Desta vez ele escreve sobre a perda de posição da Petrobrás, de maior
petrolífera da América Latina para a colombiana Ecopetrol. Sua fonte é
uma matéria do
Financial Times, uma das fontes mais “respeitadas no mundo, na área financeira”, segundo ele.
A partir dessa informação, ele agrega, como argumento de autoridade e
doutrina para a gestão pública e estatal, a análise feita por um
obscuro “Instituto Acende Brasil”, em texto intitulado “Gestão Estatal:
Despolitização e Meritocracia”, para o setor elétrico.
Vamos aos pedaços.
Em primeiro lugar, o citado artigo do
Financial Times
traz muito mais informações do que aquela pinçada pelo senador tucano. O
índice usado para o artigo do jornal inglês foi a capitalização da
Ecopetrol em 2012. Mas, no próprio texto vem a relativização do
resultado, tanto por especialistas, quanto por gestores da estatal
colombiana. Aliás, a matéria informa também que a Ecopetrol é 80%
estatal. Detalhe omitido pelo discurso apologético ao gerencialismo
privado. Algumas informações são relevantes para entender a atipicidade
do crescimento da empresa colombiana, segundo o próprio jornal
britânico:
a) o mercado de ações na Colômbia é muito pequeno e a Ecopetrol
tornou-se uma espécie de porto seguro para todos os tipos de
investidores do país;
b) os fundos de pensão colombianos sofrem forte restrição estatal,
para especular no estrangeiro e, portanto, convergem seus recursos para a
Ecopetrol, como forma de valorização de seu patrimônio;
c) fortes aportes estatais desde 2007 garantiram um regular fluxo de investimentos na empresa;
d) há consultores que desconfiam de sobrevalorização contábil de setores da própria empresa.
Finalmente, o próprio presidente da Ecopetrol, Javiér Gutiérrez, é
comedido e não comemora o novo ranqueamento: “Não se pode realmente
comparar, porque a Petrobrás é um gigante em muitas frentes. (…) A
capitalização de mercado é simplesmente um reflexo da confiança que o
mercado tem na Colômbia, em geral, e em particular a Ecopetrol, mas o
mercado tem altos e baixos.”
Ou seja, Aécio pinçou uma informação de um texto, omitiu todo o resto
e sustentou sua análise pessimista sobre a Petrobrás, baseado somente
em suas posições ideológicas privatistas.
Ora, a Ecopetrol é exatamente o exemplo inverso do que ele defende: é
mais “estatal” que a Petrobrás, opera num mercado de ações fraco
(atraindo investimentos como um refúgio) e se beneficia com fundos de
pensão daquele país, fortemente constrangidos a nela investir.
Tais “detalhes” não poderiam ser omitidos na análise de quem pretende
ser presidente do Brasil. Seria desonestidade intelectual, se não
conhecêssemos a superficialidade com que o senador trata esses temas.
Leia abaixo a matéria original do
Financial Times com os dados ignorados pelo senador.
Em segundo lugar, o tal “Acende Brasil” é uma instituição que
expressa as opiniões e interesses dos acionistas privados nas estatais
elétricas. Logo, seu discurso sobre meritocracia tem um olhar para os
dividendos a serem pagos aos grandes acionistas e não à qualidade e
economicidade dos serviços prestados ao povo.
Conclusão: Aécio até se esforça para se credenciar como alternativa
da direita privatista e neoliberal do país; mas, convenhamos, com o seu
“Control C, Control V” seletivo fica cada vez mais difícil, até para as
tais elites dessa direita, acreditar na aposta de que ele possa liderar
algum projeto de oposição.
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Ecopetrol overtakes Petrobras by market cap
By Ed Crooks and Pan Kwan Yuk in New York and Andres Schipani in Cartagena
do Financial Times
Colombia’s national oil group Ecopetrol has grown to become the
largest listed company in Latin America, ahead of Brazil’s Petrobras, in
one of the most dramatic moves in the global energy industry of the
past year.
Colombia’s strong resource base and business-friendly policies have made
it a favoured location for the international oil industry, and
Ecopetrol, which is 80 per cent owned by the government, accounts for
about four-fifths of the country’s production.
However, some investors and analysts believe the rise of more than 50
per cent in its shares over the past 15 months is not justified by the
fundamentals of the business.
Ecopetrol’s market capitalisation of $129.5bn at Friday’s close was
greater than Petrobras’s $126.8bn, even though the Brazilian company’s
production is about three times greater.
Javier Gutiérrez, Ecopetrol’s chief executive, himself sounded cautious about the company’s valuation.
“One cannot really compare because Petrobras is a giant on many fronts,” he told the Financial Times.
“The market capitalisation is simply a reflection of the confidence
the market has in Colombia in general, and Ecopetrol in particular, but
the market has ups and downs.”
In spite of excitement over the huge oil discoveries off the coast of
Brazil, Petrobras’s shares have lost 45 per cent of their value over
the past three years, hit by disappointing financial results and
concerns about the huge investment needed to develop those fields.
It has also faced persistent political intervention, including
fuel-price regulation and action to claim additional tax payments.
Robin West of PFC Energy, the consultancy, argues that Colombia’s
market-friendly policies have helped deliver a strong rebound in oil
production since 2007, and Ecopetrol is well positioned to benefit from
future growth.
However, other analysts and investors argue that investment flows are
the most important factor behind Ecopetrol’s recent share price
performance.
One private equity manager argued that restrictions on Colombian
pension funds’ foreign investments were driving investment in Ecopetrol.
“The funds are getting more and more inflows every year and they need to invest this money,” he said.
“The local stock market is relatively small. Ecopetrol is the biggest
stock on it so that is why you are seeing so much demand for the
shares.”
Alexander Muromcew, emerging market equity portfolio manager at
financial services group TIAA-CREF, said he believed funds flowing
between Petrobras and Ecopetrol may have lifted the Colombian company’s
shares.
“In our view, Ecopetrol’s gains are not supported by the company’s
fundamentals,” he said. “While Ecopetrol was a good growth story in
2012, its recent earnings have been disappointing. The bloom may be
coming off the rose on this one.”
Diego Usme, an analyst with Ultrabursátiles, a brokerage in Bogotá,
said he considered the shares overvalued compared with other similar
companies, and compared with its discounted cash flows.
One of the reasons, he said, was that “many investors, regular people, consider Ecopetrol as a sort of refuge; a safe bet”.
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04/02/2013 – 03h30
Ladeira abaixo
por Aécio Neves, na Folha.com
Além do aumento do preço da gasolina, anunciado pelo governo federal,
a Petrobras voltou a entrar em evidência, semana passada, ao perder o
posto de maior empresa da América Latina.
O jornal “Financial Times”, um dos mais respeitados no mundo na área
financeira, colocou a colombiana Ecopetrol no topo do ranking das
empresas de maior valor de mercado. As ações da Petrobras perderam 45%
do valor ao longo dos últimos três anos, de acordo com a publicação
britânica.
No decorrer de 2012, com perplexidade, o Brasil foi tomando
conhecimento da existência das graves dificuldades na gestão da estatal,
com aumento das importações, problemas de caixa, desvalorização de seus
papéis no mercado, dentre outros.
Houve uma troca brusca no comando da empresa, para tentar colocá-la nos trilhos novamente.
Há um estudo recente que traz uma síntese digna de nota sobre os
males capazes de corroer a vida de uma companhia pública. Intitulado
“Gestão Estatal: Despolitização e Meritocracia”, o trabalho foi
realizado pelo Instituto Acende Brasil para o setor elétrico, mas suas
conclusões são válidas para a Petrobras e outras estatais mal
gerenciadas, de uma maneira geral.
Dentre os entraves descritos na literatura econômica tratados no
estudo, destaca-se a administração inepta: os dirigentes são nomeados
pela sua lealdade aos governantes, desconsiderando-se as qualificações
requeridas para o cargo.
As empresas sofrem também com o uso político que se faz delas. A
falta de disciplina orçamentária pesa muito. Por terem como acionista
majoritário o governo, muitas estatais vivem na expectativa de que
eventuais deficits serão necessariamente cobertos por aportes oficiais. O
processo decisório burocrático, típico da má administração pública,
acaba sendo a cultura dominante, prejudicando a agilidade necessária.
O estudo cita uma estratégia para se bloquear o uso político das
estatais, com uma “blindagem” contra as pressões externas. São medidas
como recrutamento profissional e competitivo de diretores, uso de
indicadores e metas, transparência nos resultados, prestação periódica
de contas e aplicação de incentivos e penalidades por desempenho.
O governo federal está na contramão desses preceitos que poderiam
oxigenar –e muito– a economia brasileira. De um lado, ocuparam-se as
estatais existentes como se patrimônio do PT fossem. De outro,
aumenta-se o número delas –levantamento divulgado ano passado mostra que
o PT criou mais estatais que todos os governos pós-militares.
Parafraseando um dilema de outrora, a saúva do aparelhamento partidário pode acabar com o Brasil.