sábado, 21 de janeiro de 2012

TV: fábrica de mais-valia ideológica

Por Elaine Tavares, no blog Palavras Insurgentes:

A televisão é uma usina ideológica. Gera milhares de megawatts de ideologia a cada programa, por mais inocente que pareça ser. E ideologia como definiu Marx: encobrimento da realidade, engano, ilusão, falsa consciência. Então, se considerarmos que a maioria da população latino-americana, aí incluída a brasileira, se informa e se forma através desse veículo, pensá-la e analisá-la deveria ser tarefa intelectual de todo aquele que pensa o mundo.

Afinal, como bem afirma Chomsky, no seu clássico “Os Guardiões da Liberdade”, os meios atuam como sistema de transmissão de mensagens e símbolos para o cidadão médio. “Sua função é de divertir, entreter e informar, assim como inculcar nos indivíduos os valores, crenças e códigos de comportamento que lhes farão integrar-se nas estruturas institucionais da sociedade”. Não é sem razão que bordões, modas e gírias penetram nas gentes de tal forma que a reprodução é imediata e sistemática.

A Constituição é letra morta?

A Constituição é letra morta?

Ninguém tem nada a ver com o que fazem pessoas maiores fazem em sua intimidade, de forma consentida, se isso não envolve violência.
Niguém tem nada a ver com o direito de pessoas expressarem opinião ou criação artística, independente de se considerar de bom ou mau gosto.
Outra coisa, bem diferente, é utilizar-se de concessões do poder público, como são os canais de televisão, sobretudo os abertos, para promover, induzir e explorar, com objetivo de lucro, atentados à dignidade da pessoa humana.
Não cabe qualquer discussão de natureza moral sobre a índole e o comportamento dos participantes. Isso deve ser tratado na esfera penal e queira Deus que, 30 anos depois, já se tenha superado a visão que vimos, os mais velhos, acontecer em casos como o de Raul “Doca” Street, onde o comportamento da vítima e não o ato criminoso ocupava o centro das discussões.
O que está em jogo, aqui, é o uso de um meio público dedifusão, cujo uso é regido pela Constituição:
Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;(…)
IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
O que dois jovens, embriagados, possam ou não ter feito no “BBB” é infinitamente menos graves do que o fato de por razões empresariais, pessoas sóbrias e responsáveis pela administração de uma concessão pública fazem ali.
Não adianta dizer que um participante foi expulso por transgredir o regulamento do programa. Pois se o programa consiste em explorar a curiosidade pública sobre comportamentos-limite, então a transgressão destes limites é um risco assumido deliberadamente.
Assumido em razão de lucro pecuniário: só as cotas de patrocínio rendem à Globo mais de R$ 100 milhões. Com a exploração dos intervalos comerciais, pay-per-view, merchandising, este valor certamente se multiplica algumas vezes.
Será que um concessionário de linhas de ônibus teria o direito de criar “atrações” deste tipo aos passageiros, para lucrar?
Intependente da responsabilização daquele rapaz, que depende de prova, há algo evidente: a emissora assumiu o risco, ao promover a embriaguez, a exploração da sexualidade, o oferecimento de “quartos” para manifestação desta sexualidade, a atitude consciente de vulnerar seus participantes a atos não consentidos. É irrelevante a ausência de reação da jovem, ainda que não por embriaguez. Se a emissora provocou, por todos os meios e circunstâncias, a possibilidade de sexo não consentido, é dela a responsabilidade pelo que se passou, porque não adiante dizer que aquilo deveria parar “no limite da responsabilidade”.
Todos os que estão envolvidos, por farta remuneração, neste episódio – a começar pelo abjeto biógrafo de Roberto Marinho, que empresta o nome do jornalismo à mais vil exploração do ser humano – não podem fugir de suas responsabilidades.
Não basta que, num gesto de cinismo hipócrita, o sr. Pedro Bial venha dizer que o participante está eliminado por “infringir as regras do programa”. Se houve um delito, não é a Globo o tribunal que o julga. Não é uma transgressão contratual, é penal.
Que, além da responsabilização de seu autor, clama pela responsabilização de quem, deliberadamente, produziu todas as cirncunstâncias e meios para isso.
E que não venham a D. Judith Brito e a Abert falar em censura ou ataques à liberdade de expressão.
E depois não se reclame de que as demais emissoras façam o mesmo.
O cumprimento da Constituição é dever de todos os cidadãos e muito maior é o dever do Estado em zelar para que naquilo que é área pública concedida isso seja observado.
Do contrário, revoquemos a Constituição, as leis, a ideia de direito da mulher sobre seu corpo, das pessoas em geral quanto à sua intimidade e o conceito social de liberdade.
A Globo sentiu que está numa “fria” e vai fazer o que puder para reduzir o caso a um problema individual do rapaz e da moça envolvidos. Nem toca no assunto.
Tudo o que ela montou, induziu, provocou para lucrar não tem nada a ver com o episódio. Não é a custa de carícias íntimas, exposição física, exploração da sensualidade e favorecimento ao sexo público que ela ganha montanhas de dinheiro.
Como diz o “ministro” Pedro Bial ao emitir a “sentença” global ( veja o vídeo) : o espetáculo tem que continuar. E é o que acontecerá se nossas instituições se acovardarem diante das responsabilidades de quem promove o espetáculo.
Atirar só Daniel aos leões será o máximo da covardia para a inteligência e a justiça nestes país..

E a explosão da inadimplência? Inadimpliu…

Você deve estar lembrado que, na semana passada, todos os jornais deram chamadas para o “aumento recorde” da inadimplência.
Naquela ocasião, escrevi, no blog Projeto Nacional, um post mostrando, com os dados do próprio Serasa, que o valor médio das dívidas em atraso do consumidor brasileiro havia, ao contrário, diminuído.
Hoje, o Secovi – Sindicato das Empresas Imobiliárias de São Paulo – mostra que é um absurdo pensar nossa economia como se estivesse acontecendo um aumento explosivo da inadimplência.
O número de ações de cobrança de taxas condominiais em atraso é recorde. Recorde negativo, porque o número despencou 15,76% durante  2011, na comparação com 2010. E uma tendência que se acentuou no final do ano, como diz o comunicado do sindicato das imobiliárias:
“De janeiro a dezembro, foram ajuizados 9.947 processos, contra 11.808 em igual período de 2010. O resultado confirma o ciclo de baixa iniciado em 2007 (15.902 ações), 2008 (13.084 ações) e 2009 (11.459 ações). O levantamento indicou ainda queda de 33,68% nos processos em dezembro, com 579 casos, contra 873 no mês anterior. Em comparação ao último mês de 2010, o número caiu 27,99% (804 casos).”
Você pode ver, no gráfico elaborado com os dados do Secovi, que a inadimplência vem baixando ano após ano.
Exceto, claro, nos jornais.

Como escolher a manchete. E não dizer nada.

Folha e Esradão nos dão hoje o mais evidente exemplo de como a mesma notícia pode ser tratada para gerar otimismo ou pessimismo.
Tecnicamente, ambas estão corretas.
Economicamente, ambas estão incorretas.
Não há uma crise imobiliária, assim como não há um boom imobiliário.
Há uma recuperação progressiva nas vendas do setor, que tinham mesmo de cair com a evolução absurda dos preços cobrados. Os preços dos imóveis em em São Paulo subiram, só este ano, 27% e quase 150% nos últimos três anos.
Em segundo lugar, a intensidade com que evoluiu a oferta  de imóveis, desde o final de 2007, aliviou um pouco do déficit histórico que o setor acumulava, pela falta de financiamento.
E, em terceiro lugar, qualquer garoto de ginásio sabe que o custo do crédito (cujo nome é juro) subiu em 2011. Como imóvel, mais que qualquer outro bem, depende do crédito…
Infelizmente, ambos os jornais “pulam” a informação mais importante, distribuída pelo próprio sindicato das empresas imobiliárias na forma de um gráfico esclarecedor, que a gente reproduz ao lado.
Imóveis, mesmo para serem vendidos na planta, demandam meses entre a decisão de investir em sua construção e realizar sua comercialização. É preciso fazer a comprado terreno, o projeto, a incorporação…
A crise de 2008, que encontrou o mercado aquecido, desacelerou obras e a decisão de investir em novas unidades. De fins de 2009 para cá, com pequenos oscilações, o que se observa é uma tendência contínua de novos lançamentos.
O que vai forçar, senão uma retração, ao menos uma desaceleração na alta do preço dos imóveis.
Infelizmente, é com este nível de superficialidade que notícias econômicas de importância para a população (e que importância tem a decisão sobre a compra de um imóvel) acabam sendo tratadas por um jornalismo pueril.
Do tijolaço

A serpente, desde seu ovo

Postado por Fernando Brito 10 comentários
1
Outro dia, a Ministra Eliane Calmon disse, a propósito dos escândalos no Judiciário, que “todo mundo vê a serpente nascendo pela transparência do ovo,  mas ninguém acredita que uma serpente está nascendo”.
Talvez seja a mais precisa definição para aqueilo que, há exatas 20 anos, pregava no deserto um cidadão que tinha a coragem, que vai faltando cada vez mais neste país, de enfrentar o monopólio avassalador (de vontades, inclusive) representado pela Rede Globo.
Este indescritível episódio do “BBB”, no qual rasteja na lama a maior emissora de televisão brasileira, que repercute pelo mundo vergonhosamente e, pior, corroi-nos as estranhas a todos os que acreditamos no respeito e na dignidade  como essência relações humanas, é apenas um estágio – quais serão os próximos? – de uma jornada para a barbárie, infelizmente consentida por parte de nossa inteligência, por medo, cumplicidade ou simples covardia ante o poder.
O ovo desta serpente, há exatos 20 anos, era transparente.  E houve quem lhe apontasse a natureza sibilante, peçonhenta, deformante, mortal para uma sociedade que pretende ser humana.
Por isso, e com a inestimável ajuda do Ápio Gomes – guardião invencível dos textos publicados por Leonel Brizola – republico um de seus textos sobre o  tema.

O ovo da serpente

A violência que todos vêem e poucos percebem

Durante uma semana – de 5 a 11 de janeiro de 1992 – uma equipe de pesquisadores acompanhou toda a programação da Rede Globo. Foram examinados meticulosamente 77 programas, entre filmes, seriados, novelas, humorísticos, variedades, noticiários e infantis. Os pesquisadores permaneceram 114 horas e 33 minutos diante da televisão. Da totalização final, foram excluídos os programas jornalísticos para separar o que é noticiário da programação escolhida deliberadamente pela própria emissora.
O que estes pesquisadores encontraram foi uma verdadeira escola do crime e da violência. Naquela semana, a Globo exibiu 244 homicídios tentados ou consumados, 397 agressões, 190 ameaças, 11 seqüestros, 5 crimes sexuais com violência ou ameaça, 26 crimes sexuais de sedução, 60 casos de condução de veículos com perigo para terceiros ou sob efeito de drogas, 12 casos de tráfico ou uso de drogas, 50 de formação de quadrilhas, 14 roubos, 11 furtos, 5 estelionatos, e mais 137 outros, entre os quais: tortura (12), corrupção (4), crimes ambientais (3), apologia ao crime (2) e até mesmo suicídios (3).
E não se diga que isto é veiculado nos chamados programas para adultos. A programação infantil é repleta de imagens de violência, inclusive em desenhos animados, com 58 cenas diárias de violência. Projetando tal constatação, verifica-se que anualmente a Rede Globo propicia às crianças brasileiras a visão de 21.222 cenas de violência. Se considerarmos que a média diária geral da programação é de 166 cenas de violência, chegaremos à conclusão de que a programação infantil detém 34,9% da violência diária transmitida pela TV Globo.
Para os espectadores de novelas estão reservadas 150 cenas de crimes por semana (média diária de 21,4). Já os apreciadores de seriados têm à disposição 79 crimes semanais (média diária de 11,2). E quem acompanha a programação humorística e de variedades vai se deparar com 74 episódios violentos, principalmente agressões (média diária de 10,5).
Os documentos comprobatórios desta pesquisa encontram-se em poder do Dr. Nilo Batista, Secretário de Justiça do Estado, à disposição de quem desejar consultá-los. Estes números estarrecedores nos permitem questionar a autoridade moral da Globo, tevê e rádio, e do jornal O Globo e o papel destrutivo que vêm desempenhando. Já chamei a atenção de meus compatriotas para a instigante coincidência entre o crescimento das Organizações Globo e o crescimento da violência em nosso País. Esta pesquisa revela que não se trata de mera coincidência. Estudos criminológicos – os mais respeitados – advertem para as conseqüências da exposição de cenas de violência às crianças e às pessoas ainda imaturas. As Organizações Globo, quanto a este aspecto, representam uma autêntica e verdadeira escola do crime, reproduzindo e estimulando a cultura da violência, que encontra campo fértil numa sociedade fortemente marcada pela injustiça, pela pobreza e pelo atraso.
A Globo, que comete contra nossas crianças e jovens este crime – que países como os europeus de nenhuma forma admitiriam –, é a mesma que utiliza seus maiores e melhores espaços para destruir um programa educacional como o dos Cieps e dos Ciacs. Minha mensagem aos pais e avós é que defendam seus filhos e netos como puderem, enquanto combatemos – como o pequeno Davi diante de Golias – essa hidra gigantesca, diante da qual tantos se omitem ou, pior ainda, se intimidam e se curvam, submissos.
(Leonel Brizola, 19 de janeiro de 1992, no Jornal do Brasil)

Edição do ENEM em abril é cancelada



Saiu no jornal nacional desta sexta-feira reportagem que celebra – com a repórter Claudia Bom (?) Tempo -  o cancelamento do primeiro Enem deste ano.

Pela primeira vez, o Ministério da Educaçao ia realizar dois Enem em 2012, para acelerar o acesso do pobre à universidade.

A Justiça do Ceará – sabe-se lá por que – e a Globo (com o auxílio secundário do PiG (*) impresso) conseguiram dinamitar o primeiro Enem do ano.

Mantém-se o habitual, o de novembro.

A reportagem do jn tenta passar a impressão de que o Ministro Fernando Haddad cancelou o primeiro Enem de 2012 por inépcia.

(De olho na  eleição de São Paulo …)

E atenua a verdadeira causa: com a decisão (ainda que provisória) da Justiça, que dá a cada aluno o direito de ver sua prova de redação, o Ministério da Educação ( e nenhum Ministerio da Educação do mundo ) não tem condição de atender às duas demandas: um Enem daqui a três meses e providenciar o acesso a TODAS as provas de redação.

Não é de espantar.

A Globo e uma certa Justiça são inimigos do Enem por motivos ideológicos.

Tão simples quanto isso.

A Casa Grande custa a desmoronar.

Paulo Henrique Amorim

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Os crimes, os autores, as vítimas e os motivos - A manipulação

Entre os necrológios e obituários veiculados pela imprensa após a morte do ex-governador Leonel Brizola, ocorrida em 21 de junho, um episódio ligado à sua trajetória política mereceu rememorações umas mais e outras menos apaixonadas. Trata-se do chamado "caso Proconsult", uma bem urdida tentativa de fraude levada a cabo nas eleições de 1982, quando Brizola disputou (e ganhou) o cargo de governador do estado do Rio de Janeiro.
Anistiado depois de 15 anos de exílio, Brizola desembarcara no Rio, em 1979, disposto a reconstruir o antigo PTB criado por seu padrinho político Getúlio Vargas. Uma manobra de esvaziamento de sua liderança, concebida no gabinete do então general-ministro da Casa Civil Golbery do Couto e Silva, deu a sigla para Ivete Vargas, uma sobrinha de Getúlio, de perfil bem mais conservador e, malgrado o sobrenome, confiável ao regime e perfeita antípoda do combativo engenheiro gaúcho.
Brizola então fundou o PDT, em 1980, e foi à luta para enfrentar as eleições de 1982, as primeiras diretas ao governo dos estados desde o golpe de 1964. Entrou como azarão na disputa pelo governo do Rio, na rabeira das pesquisas, enfrentando na campanha o favorito Miro Teixeira (PMDB), o candidato do regime militar Wellington Moreira Franco (PDS), a herdeira do lacerdismo Sandra Cavalcanti (PTB) e Lysâneas Maciel, representando o PT, partido também fundado em 1980 e que disputava sua primeira eleição majoritária.
Brizola brilhou na campanha, conseguiu reverter o quadro adverso das pesquisas e assustou os militares então no poder, em especial a parcela alocada na chamada "comunidade de informações" – leia-se Serviço Nacional de Informações (SNI), suas ramificações nas forças armadas e demais patrocinadores dos porões do regime.
Nas eleições de 22 anos atrás, os votos eram dados em cédulas de papel. No pleito de 1982, o processo de contagem previa que os votos seriam apurados nas próprias mesas coletoras e, dali, os resultados parciais seguiriam para a totalização nas zonas eleitorais – no caso do Rio, a totalização geral era de responsabilidade da empresa Proconsult, que prometia agilidade e confiabilidade de resultados num tempo em que ainda havia quem denominasse os computadores de "cérebros eletrônicos".
Eleição convocada, campanha feita, votos depositados nas urnas – e teve início a maracutaia. O esquema da fraude deveria funcionar na etapa de totalização final dos votos, quando, em função de um cognominado "diferencial delta", os programas instalados nos computadores da empresa Proconsult, contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio para o serviço, subtrairiam uma determinada porcentagem de votos dados a Brizola transformando-os em votos nulos, ou promoveriam a transferência de sufrágios em branco para a conta do então candidato governista, Moreira Franco.
A falsificação na contagem foi descoberta graças ao trabalho da imprensa, sobretudo a partir do esquema de apuração paralela ao do TRE-RJ montado pela Rádio Jornal do Brasil – cuja cobertura daquelas eleições concorreu e levou larga vantagem sobre o aparato armado pelo conglomerado de mídia hegemônico no estado, as Organizações Globo.
A Rede Globo de Televisão preparou um aparentemente sofisticado conjunto de procedimentos para acompanhar a marcha da apuração no Rio. E deu com os burros n´água porque, na ânsia de informar com rapidez os resultados parciais, teve de se fiar principalmente nos números do TRE – estes já viciados na origem, porque chancelados pela Proconsult e já contaminados pelo tal "diferencial delta". A Rádio Jornal do Brasil, por sua vez, sem contar a mesma fartura de recursos da Globo para a cobertura das eleições, optou por acompanhar a apuração atendo-se preferencialmente aos números relativos às eleições majoritárias – os votos para governador e senadores –, e reportando do TRE apenas os dados relativos à votação proporcional para deputados federais, estaduais e vereadores.
Com sua estratégia, a Rádio JB ganhou em agilidade diante da cobertura paquidérmica da Rede Globo. E pôde revelar em primeira mão a fraude que se armava, dada as discrepância entre os números que anunciava e os constantes nos boletins oficiais do TRE. A apuração foi interrompida e o esquema, descoberto, então desmontado às pressas. O resultado final mostrou o que as ruas já haviam indicado durante a campanha: Leonel Brizola foi eleito com 1.709.180 votos (ou 34,2% dos votos válidos), Moreira Franco ficou com 1.530.706 (30,6%), Miro Teixeira com 1.073.446 (21,5%), Sandra Cavalcanti obteve 536.383 (10,7%) e Lysâneas Maciel contou 152.614 votos (3,1%)
O todo-poderoso
Essa tentativa de melar as eleições de 1982 foi lembrada de formas distintas nas matérias produzidas após a morte do líder histórico do PDT. O tom geral foi de acusações à Rede Globo, que estaria mancomunada com o esquema que originou e sustentou os resultados advindos do "diferencial delta" residente nos computadores da Proconsult. Este Observatório reproduziu a pendenga [veja remissões abaixo]. E colheu o depoimento de um dos protagonistas daqueles dias confusos, o deputado Miro Teixeira (hoje no PPS-RJ), então candidato do PMDB ao governo do Rio com as bênçãos do todo-poderoso governador Antônio de Pádua Chagas Freitas – um empresário de mídia, dono dos jornais O Dia e A Notícia, virtual vice-rei da política fluminense que moveu mundos para eleger Miro como seu sucessor.
Miro Teixeira, ex-ministro das Comunicações do governo Lula, participou do programa Observatório da Imprensa na TV (terça, 29/6) que tratou da relação de Leonel Brizola com a imprensa. No fim da tarde de sexta-feira, dia 2, ele conversou por telefone com o OI a respeito do "caso Proconsult". Eis o seu relato:
***
TV Globo
"A Globo não tinha nada a ver [com a fraude] por uma razão muito simples: eu reconheci a vitória do Brizola no primeiro dia de apuração exatamente numa entrevista à TV Globo. E é insensato imaginar que o cúmplice de um golpe quisesse abortar o golpe. O golpe existia, e naquele primeiro dia [de apuração], quando reconheci a vitória do Brizola, não se falava na participação da Proconsult. No primeiro dia, parecia [apenas] uma velha fraude do "mapismo", ou seja, o [tradicional] procedimento de preencher cédulas em branco e lançar números falsos [nos mapas de votação], prejudicando uns e favorecendo outros.
"Quando foi ao ar minha entrevista, me ligou o advogado Wilson Mirza, que dizia falar em nome do Brizola, me cumprimentando pela declaração e perguntando se eu concordaria em passar um telegrama ao Brizola reconhecendo a vitória dele. Com esse telegrama na mãos, Brizola convocaria uma entrevista com a imprensa estrangeira e denunciaria a tentativa de fraude. Logo em seguida vem a apuração paralela da Rádio Jornal do Brasil, e só então, graças ao César Maia [atual prefeito do Rio, então militante do PDT de Brizola], descobre-se a manipulação do programa de totalização nos computadores da Proconsult, patrocinada pelo SNI."
O esquema
"A ordem era a seguinte: o voto era dado em cédulas de papel, a apuração se dava nas mesas coletoras de votos. Já na contagem começou a roubalheira, em especial na Zona Oeste do Rio, onde o Brizola era muito forte. Cédulas em branco eram preenchidas; depois, nos boletins que reuniam as totalizações dessas urnas, havia outra adulteração. E o golpe de misericórdia era dado nos computadores onde se fazia a totalização [geral dos votos]. Essa fraude foi descoberta pelo César Maia, que identificou o tal ‘diferencial delta’. Os programas [dos computadores] eram organizados de tal maneira que, para um determinado número de votos contados para Brizola, o sistema abatia automaticamente um determinado porcentual.
"Os três fatos associados resultaram na interrupção da apuração. Não tenho como provar, mas tenho como afirmar: [depois de denunciada a fraude], vieram [ao Rio] técnicos em informática do SNI para eliminar [dos computadores da Proconsult] o tal ‘diferencial delta’ e os seus efeitos."
Proconsult
"O que era a Proconsult? Era uma empresa que só existia no papel. Foi criada para se habilitar à apuração das eleições [de 1982] no estado do Rio de Janeiro. Era uma subsidiária da Racimec – empresa esta que no regime militar ganhou o monopólio das máquinas de jogos da Caixa Econômica Federal. E hoje essa empresa é Gtech, a mesma envolvida no escândalo Waldomiro Diniz. A Racimec, a rigor, já há muitos anos tinha participação societária da Gtech."
Os porquês
"O objetivo do SNI não era apenas a eleição de governador, mas sim [a tentativa de garantir] a influência no Colégio Eleitoral que ser reuniria para as eleições [presidenciais] indiretas de 1985. Por isso foram em cima do Pedro Simon, no Rio Grande do Sul, do Marcos Freire, em Pernambuco, e do Brizola, no Rio. O nome do jogo era Colégio Eleitoral, isto é, dar ao PDS [o partido governista de então] um conforto para assegurar a sucessão do general [João Baptista] Figueiredo, da melhor maneira que essa comunidade de informação pretendesse."
Rastros da fraude
"Se você analisar os números [das eleições proporcionais] da época, verá votações que jamais se repetiram e candidatos eleitos que depois desapareceram no mapa. São provas circunstanciais de que houve conseqüências nas eleições para deputados e vereadores.
"Tem uma parte que foi o Brizola quem me contou: ele me disse que foi procurado por um dos mentores da fraude, um dos analistas de sistemas que fizeram o ‘diferencial delta’. Isto se deu no auge do reconhecimento da vitória, mas a repercussão não estava formalizada e não se falava ainda em Proconsult. Essa pessoa procurou o Brizola e ofereceu o mapa da fraude em troca da presidência da Companhia do Metrô ou do Banco do Estado do Rio de Janeiro. Em contrapartida dava a garantia de que a fraude não seria consumada. E o Brizola fingiu concordar. O César Maia foi com tudo para cima da Proconsult [escudado nos números da apuração paralela da Rádio JB] a partir da informação que lhe foi dada pelo Brizola.
"Esses são os crimes, os autores, as vítimas e os motivos."
FONTE: Observatório da Imprensa
Desmonte rápido

domingo, 15 de janeiro de 2012

10 Cenas do Churrascão da Gente Diferenciada na Cracolândia


Neste sábado (14), centenas de pessoas compareceram ao "Churrascão da Gente Diferenciada", entre as esquinas da rua Helvética com a Dino Bueno, na região conhecida como Cracolândia, centro de São Paulo. Nas imagens realizadas pelo jornalista e social mídia Lauri Castro*, colaborador especial do Vermelho, você confere alguns momentos do evento que trouxe, além do churrasco, música e arte para protestar contra a Operação Sufoco.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Moradores de ocupação no interior de São Paulo prometem "resistir até a morte"

Os 10 mil moradores da ocupação Pinheirinho, localizada em São José dos Campos, prometem resistir até a morte à reintegração de posse da área, expedida pela juíza Márcia Loureiro. A repórter Lúcia Rodrigues está no acampamento e conversou com o coordenador geral da ocupação, Valdir Martins, o Marrom. O dirigente sem-teto está apreensivo com a possibilidade de invasão da área pela PM. Ele considera que pode ocorrer um "banho de sangue". Representantes dos governos federal, estadual e municipal, dos sem-teto e da igreja se reúnem na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da cidade para discutir a crise. O terreno, de 1,3 milhão de metros quadrados, pertence à massa falida do megaespeculador Naji Nahas.

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13/01 - Moradores de ocupação no interior de São Paulo prometem "resistir até a morte"
13/01 - Negociação na OAB não resulta em solução definitiva para os moradores do Pinheirinho
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Protestos em Teresina seguem intensos e prefeito promete abrir diálogo

publicada sexta-feira, 13/01/2012 às 14:05 e atualizada sexta-feira, 13/01/2012 às 14:05


Por Juliana Sada
A cidade de Teresina, capital do Piauí, é palco de mais de dez dias consecutivos de protestos contra o aumento da passagem de ônibus e uma proposta de sistema de integração. O reajuste de R$1,90 para R$ 2,10 havia sido anunciado em agosto, mas uma semana de manifestações fizeram com que o prefeito Elmano Ferrer (PTB) recuasse e instalasse um processo de auditoria para avaliar a necessidade de aumento na tarifa.
Entretanto, a auditoria “não correspondeu aos anseios do movimento”, de acordo com o estudante de direito da Universidade Federal do Piauí Álvaro Feitosa e o advogado Lucas Vieira “ pois a metodologia empregada foi aquela determinada pelo SETUT (Sindicato das Empresas de Transporte Público de Teresina)”.
Finalizado o processo de auditoria e já no primeiro dia de 2012 o valor da passagem de ônibus foi reajustado e os protestos foram retomados. As manifestações compostas principalmente por estudantes foram persistentes e a polícia militar intensificou a repressão, que chegou ao auge na última terça-feira. Na tarde de ontem, dia 12, o prefeito anunciou que iria abrir um espaço de diálogo com o manifestantes mas nenhuma data foi anunciada.
O estudante de direito Álvaro Feitosa e o advogado Lucas Vieira conversaram, por e-mail, com o Escrevinhador e contaram como está a situação em Teresina.

Há denúncias de que na terça-feira houve uma violenta repressão aos manifestantes. O que aconteceu?
No dia 10 a repressão foi a mais violenta já que, segundo os portais da cidade, foi destacado um efetivo de cerca de 500 policiais militares para desobstruir a via que estava ocupada por cerca de 400 estudantes.

As cenas da desobstrução são bestiais, os estudantes foram massacrados pela Tropa de Choque, muita gente foi atingida por bala de borracha, e um estudante ficou ferido no olho.
Além disso, foram detidas 17 pessoas, incluindo três adolescentes, sendo que algumas foram liberadas no decorrer da noite, e outros oito maiores foram encaminhados para presídios da capital.Como está a situação dos presos?
Houve 17 detenções somente na quarta-feira, embora já tivéssemos acompanhado a detenção de outras 14 pessoas durante os demais dias, sendo que algum deles eram adolescentes. Todas as detenções de adolescentes, ressalte-se, não se procederam segundo o previsto no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que seria o encaminhamento para a Delegacia de Proteção da Criança  e Adolescente.

Os primeiros detidos foram liberados sem tantos esforços, através das intervenções de advogados do Fórum e particulares. Logo se viu a partir do terceiro dia de manifestação que o procedimento da Delegacia (Central de Flagrantes) estaria obedecendo a ordens superiores, pois as ilegalidades e abusos estavam maiores. Na segunda-feira, sete manifestantes foram detidos, sendo dois adolescentes, e para aqueles fora decretada prisão com fiança arbitrada no valor de 414 reais para cada um! A autuação fora de dano qualificado, porém informações não oficiais nos foram dadas no sentido que seriam autuados também em desacato, resistência e, pasme, formação de quadrilha.

Ontem [10], chegou-se ao ápice da arbitrariedade. Como mostra diversos vídeos, a manifestação estava ocorrendo pacificamente quando a Polícia Militar e o RONE agrediram, brutalmente, os manifestantes. Dessa operação, 17 pessoas foram detidas. Ao longo da madrugada, conseguiu-se liberar os menores e mais seis pessoas, restando oito na Central de Flagrantes.
[Nota: Os oito manifestantes que estavam detidos foram libertados na tarde desta quinta-feira, após pagamento de fiança]
Há acusações de que a polícia esteja usando policiais à paisana que estariam marcando os principais líderes com uma caneta invisível a olho nu. É isso mesmo? Foi possível identificar quem seria o infiltrado?
Sim, os policias estavam com um equipamento, que até agora não temos detalhes de como funciona, que emitiria uma marcação nos ditos líderes do movimento, e que tal marcação somente poderia ser vista através de um óculos especial. Ainda, os policiais militares estavam munidos de câmeras profissionais e fotografavam todos os que estavam presentes dos atos públicos.

Outro ponto que é importante é o fato de que o SETUT, sindicato patronal, contratou uma empresa de segurança privada CETSEG (cujo dono é um coronel da PM) para “proteger” os ônibus, contudo, a mesma estava nas ruas agredindo manifestantes! Ainda, membros dessa verdadeira milícia estavam disfarçados entre os manifestantes incitando a violência e agredindo menores.
Outro fato que chama atenção é aquele que o movimento intitulou de “o infiltrado”: um sobrinho de um proprietário da empresa de ônibus Santa Cruz que estava disfarçado no meio da multidão, e se aproveitava da confusão para agredir estudantes. Aconteceu que, flagrado agredindo uma criança de sete anos de idade quase foi linchado pelos manifestantes, contudo, a PM escoltou o criminoso e recusou a efetuar a prisão em flagrante, num claro conluio entre a polícia militar e  SETUT.
Quais as principais reivindicações do movimento?
A principal reivindicação, a curto prazo, é a revogação do decreto que aumenta o valor da tarifa – ressalte-se que a população não teve acesso ao referido decreto, fazendo com que o Ministério Público solicitasse, via ofício, uma cópia do decreto.

Tendo como mote o aumento do valor da tarifa, os manifestantes reivindicam também melhores condições de uso: replanejamento das linhas, aquisição de novos ônibus, climatização dos mesmos, e, claro, uma verdadeira integração: através de terminais, sem limite temporal e sem limite de linhas integradas.
Mas a principal reivindicação é o estabelecimento de outro sistema de transporte público. As empresas de ônibus de Teresina operam, em flagrante inconstitucionalidade, pois desde 1973 não ocorre licitação para tal serviço.
Ocorre que, não é nas licitações que a maioria do movimento enxerga uma saída, e sim na municipalização do transporte público: ou seja a Prefeitura operar  diretamente o serviço – possibilidade totalmente viável, como aponta estudo já feito pela Comissão Jurídica em Defesa do Transporte Público.
A bandeira da municipalização ganha cada vez mais apoio do movimento, uma vez que no regime de concessão a base é o lucro, e Teresina (como as demais capitais) já sabe quais são os efeitos de tal tipo de sistema.
É notório a cada ilegalidade, abuso ou silêncio das instituições públicas, de como o SETUT tem enorme influência sobre todos os poderes do município (especialmente, executivo e legislativo).

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